E-BOOK - UMA VISÃO PSICANALITICA SOBRE AS PROMESSAS DE FINAL DE ANO
📚 E-book: O Desejo por Trás da Meta:
Uma Perspectiva Psicanalítica sobre as Promessas de Ano Novo.
Capítulo 1: A Tirania do
"Eu Devo" (A Voz do Supereu)
O final de um ano e o início de
outro são marcados por um ritual quase universal: a elaboração das metas.
Perder peso, poupar dinheiro, começar o exercício, ou, em uma versão mais
contemporânea, buscar a "alta performance" e a felicidade plena.
Olhando sob a lupa da Psicanálise, percebemos que esse ritual carrega menos a
marca do Desejo genuíno e muito mais a Tirania do "Eu Devo".
O Grito da Culpa: A Lei
Internalizada
Em Freud, o Supereu é a
instância psíquica que se forma a partir da internalização das proibições, das
exigências e dos ideais dos pais e da cultura. Ele não é apenas a nossa
"consciência moral"; é, sobretudo, um agente de vigilância e de
crítica que nos impõe padrões de conduta e excelência.
As metas de Ano Novo são,
frequentemente, a expressão mais clara de um Supereu Feroz. Elas não
representam o que o sujeito deseja no sentido profundo, mas sim o que
ele acredita que deve fazer para ser digno de amor, reconhecimento ou
para evitar a culpa.
O Supereu impõe a seguinte
equação: "Se você for magro, produtivo e feliz (o ideal), você não será
punido (culpado)."
O problema reside no fato de que
o Supereu, por natureza, nunca está satisfeito. Atingir uma meta apenas
faz com que ele exija uma meta maior. O fracasso, por sua vez, é recebido com
uma agressividade psíquica devastadora, que reforça o círculo vicioso da
promessa e da auto-punição. O sujeito se sente culpado por não ser o Eu
Ideal que lhe foi imposto.
O Ideal do Ego e o Engodo da
Meta
Para Lacan, as metas de
desempenho e o ideal de felicidade plena do capitalismo tardio se apoiam no Ideal
do Ego. Este é a imagem de si mesmo que o sujeito constrói como sendo a
perfeição, o modelo a ser alcançado. O ideal do Ego é estruturalmente narcísico
e fálico (o "Tudo"), e as metas de Ano Novo são tentativas
repetidas de encarnar esse ideal.
Quando o sujeito tenta atingir
essas metas:
- Ele tenta se alinhar à exigência do Outro (a
sociedade, a família, o feed das redes sociais) sobre o que é ter
uma vida de sucesso.
- Ele se afasta da sua verdade pulsional e do
seu desejo singular.
Em última análise, as metas são
uma maneira de tentar tapar a falta estrutural (aquilo que nos constitui
como sujeitos desejantes) com uma satisfação quantificável. Mas como o
Desejo é movido justamente pela falta, nenhuma meta alcançada irá preencher o
vazio fundamental. O eu devo é a armadilha que promete completude, mas
entrega apenas mais angústia e a eterna necessidade de recomeçar a promessa
no próximo Réveillon.
📝 Referências
Bibliográficas para Consulta
- FREUD,
S. (1923). O Ego e o Id. (Fundamental para a conceituação do
Supereu e suas relações com as pulsões).
- FREUD,
S. (1930). O Mal-Estar na Civilização. (Trata da tensão entre
as exigências da civilização/cultura e o desejo individual).
- LACAN,
J. (1959-1960). O Seminário, Livro VII: A Ética da Psicanálise.
(Explora a relação entre o Ideal do Ego, a Lei e o Desejo).
Capítulo 2: O Desejo e a Falta
Estrutural
Se o Capítulo 1 nos mostrou que
as metas de Ano Novo são, em grande parte, imposições do Supereu para tapar a
culpa, este capítulo nos leva ao coração da experiência humana: a Falta.
A Psicanálise, especialmente a partir de Lacan, nos ensina que o sujeito é
a falta, e é dessa ausência que o Desejo se move.
1. Desejo, Necessidade e
Demanda
Para compreender o Desejo em sua
essência psicanalítica, é crucial diferenciá-lo de outros termos:
- Necessidade: É de ordem biológica e pode ser
satisfeita (ex: fome, sede).
- Demanda: É a articulação da necessidade
endereçada ao Outro (ex: "Quero meu leite", mas no fundo, é a
demanda por amor, por presença).
- Desejo: Surge no hiato entre a Necessidade e
a Demanda. É o que resta insatisfeito na linguagem. O Desejo não visa a
satisfação de um objeto específico, mas sim o reconhecimento do
sujeito pelo Outro. Por isso, o desejo é sempre desejo de outra
coisa, pois não pode ser preenchido.
Quando estabelecemos uma meta de
Ano Novo ("Vou correr 5km por dia"), estamos articulando uma demanda
dirigida a nós mesmos (o Supereu) e ao Outro social. Se alcançarmos, a
satisfação é efêmera, porque o motor da nossa existência, o Desejo, logo se
voltará para a próxima meta. A meta é finita; o Desejo é infinito e insaciável.
2. A Falta que nos Constitui
O sujeito nasce num estado de desamparo
(Freud) e imerso na linguagem (o Outro). A experiência inicial de satisfação (o
seio materno, por exemplo) nunca é pura, e o resíduo dessa satisfação perdida é
o que constitui a Falta Estrutural.
O ser humano é um ser faltante.
E justamente porque há uma falta (o que a teoria chama de castração
simbólica), há a possibilidade de Desejo.
Toda meta que visa o
"Tudo" — a casa perfeita, o corpo ideal, a conta bancária milionária
— é uma tentativa neurótica de negar esta falta. O sujeito pensa:
"Se eu tiver X, serei completo e não desejarei mais". No entanto, a
meta é apenas um engodo que o afasta da sua verdade: a de que ele
é um sujeito dividido e desejante.
3. O Desejo do Analista e o
Desejo em Análise
Na clínica, o percurso de análise
visa justamente deslocar o sujeito da Tirania do "Eu Devo" e
do ideal de completude para a Ética do Desejo.
O que o analista sustenta é o Desejo
de Análise do paciente: um convite a se defrontar com a falta. Não se trata
de dar uma meta, mas de ajudar o sujeito a articular a sua falta, a
reconhecer a perda inevitável e a se responsabilizar pelo que resta do
seu Desejo.
Enquanto a meta é uma promessa de
controle sobre o futuro, o Desejo é a rendição àquilo que nos
escapa, mas que, paradoxalmente, nos faz mover em direção ao que é mais
singular em nós. A verdadeira jornada de Ano Novo não é mudar o comportamento,
mas ouvir o que a Falta tem a dizer.
📝 Referências
Bibliográficas para Consulta
- FREUD,
S. (1926). Inibição, Sintoma e Angústia. (Trata do desamparo e
da angústia como elementos centrais da constituição psíquica).
- LACAN,
J. (1958). A Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder.
(Articula as três instâncias: Necessidade, Demanda e Desejo).
- LACAN,
J. (1964). O Seminário, Livro XI: Os Quatro Conceitos Fundamentais
da Psicanálise. (Desenvolve o conceito da Falta e o objeto a
como causa do desejo).
Caso precise de mais informações ou orientações sobre sua
jornada de autoconhecimento, conte sempre comigo.
Capítulo 3: O Objeto do Desejo
(Objeto a) no Consumo
Se o Desejo é movido pela Falta
(Capítulo 2), a cultura contemporânea — impulsionada pelo capitalismo tardio e
pela lógica do desempenho — oferece uma infinidade de objetos que prometem
anular essa falta, mas que, na verdade, apenas a realimentam. As metas de Ano
Novo, frequentemente, mimetizam essa lógica.
1. O Engodo do Objeto a
e a Promessa de Gozo
Em Psicanálise, o Objeto a
(objeto causa do desejo) é um conceito complexo que representa o resíduo da
satisfação primordial perdida, a pequena parte de nós que é irrecuperável. Ele
não é um objeto que preenche, mas sim o vazio ao redor do qual o
desejo circula.
O discurso capitalista opera
através da criação e multiplicação de objetos que se apresentam como
capazes de capturar esse Objeto a. A meta de "ter o corpo
perfeito", "comprar o carro X", ou "alcançar o status
Y" não é sobre o objeto em si, mas sobre a ilusão de Gozo Total que
ele promete.
O Gozo Total é a fantasia de
uma satisfação plena, sem Falta, que o Supereu exige ("Seja feliz!")
e que o mercado promete ("Compre isto e seja feliz!").
As metas de desempenho ("ser
100% produtivo", "nunca procrastinar") também se enquadram aqui.
Elas tentam capturar o Objeto a na forma da energia vital pura,
do tempo totalmente dominado.
2. A Compulsão e a Espiral do
Não-Desejo
Quando as metas são estabelecidas
sob a tirania do consumo e do desempenho, elas levam à compulsão. O
sujeito se engaja em uma busca frenética por objetos finitos (metas, produtos)
que são, por definição, incapazes de satisfazer o Desejo.
- Atingir a meta gera satisfação imediata, mas
passageira (um plus-de-gozar, como diz Lacan).
- Logo em seguida, a Falta retorna, demandando uma nova
meta, uma nova compra, um novo vício.
Este ciclo de busca incessante e
satisfação fugaz é a estrutura da compulsão à repetição em sua roupagem
moderna. O indivíduo, preso na espiral de metas superficiais, se afasta cada
vez mais da possibilidade de perguntar sobre o seu próprio Desejo,
trocando a liberdade de desejar pela escravidão de ter que alcançar.
3. As Metas Como Fugas da
Angústia
Em última instância, a obsessão
por metas quantificáveis e visíveis serve como uma poderosa defesa contra a Angústia
(de separação, de castração, de desamparo).
Ao estar constantemente ocupado
em "fazer", o sujeito evita a parada, o silêncio e o vazio. As
resoluções de Ano Novo são, muitas vezes, um último refúgio neurótico
para não se defrontar com a pergunta fundamental: "O que me falta? E o
que eu desejo de verdade?"
A Psicanálise propõe o caminho
inverso: parar de correr atrás da próxima meta e, no silêncio da escuta,
deixar a falta falar para que, finalmente, o sujeito possa se posicionar
eticamente perante o seu Desejo.
📝 Referências
Bibliográficas para Consulta
- LACAN,
J. (1968-1969). O Seminário, Livro XVI: De um Outro ao Outro.
(Desenvolvimento do conceito do Objeto a como causa do desejo e
mais-valia).
- LACAN,
J. (1969-1970). O Seminário, Livro XVII: O Avesso da Psicanálise.
(Aborda a lógica do discurso capitalista e a produção de plus-de-gozar
(mais-de-gozar) como motor da compulsão).
- MILLER,
J.A. (Vários textos). (Aprofundamento da relação entre o capitalismo e
a produção de objetos de consumo como substitutos do desejo).
Caso precise de mais informações ou orientações sobre sua
jornada de autoconhecimento, conte sempre comigo.
Capítulo 4: A Ética do Desejo
e o Início da Análise
Após desvendarmos as metas de Ano
Novo como exigências do Supereu (Capítulo 1) e tentativas falhas de preencher a
Falta (Capítulo 3), resta a pergunta fundamental: qual é, então, o
verdadeiro motor de uma vida? A resposta, para a Psicanálise, reside na Ética
do Desejo.
1. A Responsabilidade pelo
Desejo
O termo "ética" aqui
não se refere à moral social, mas sim à responsabilidade radical do sujeito
perante o seu próprio Desejo inconsciente. O Desejo, em sua verdade, é
subversivo, estranho e, muitas vezes, não coincide com o que a sociedade nos
diz que devemos ser ou ter.
Enquanto a meta é um plano de
fuga do Desejo ("Vou me ocupar com isso para não pensar naquilo"), a
análise é o convite para a permanência na angústia da Falta, que é o
único lugar onde o Desejo pode ser articulado.
O único "fracasso"
em Psicanálise é ceder ao seu Desejo. Não se trata de realizá-lo, mas de não
traí-lo, de assumir a sua posição singular frente ao que o mobiliza.
A virada de chave de Ano
Novo, sob a perspectiva analítica, não está em redigir novas metas
comportamentais, mas em parar de se enganar com elas. Está em se
perguntar: "O que, nas promessas que faço, me afasta da minha verdade? E o
que, naquilo que me causa angústia, aponta para o meu Desejo?"
2. A Análise como Tradução do
Desejo
O setting analítico é o
espaço onde o sujeito é convidado a sair da repetição neurótica das
"promessas de ano novo" (o eterno "vou começar na
segunda-feira") para entrar na singularidade da sua história.
A função da análise, neste
contexto, é:
- Destituir o Supereu Feroz: Aliviar a pressão
das exigências internalizadas que impõem metas inatingíveis.
- Dissociar o Desejo da Compulsão: Descolar o
sujeito dos objetos que prometem o Gozo Total e retornar o foco
para a Falta que ele tenta incessantemente preencher.
- Articular o Inarticulável: Dar palavras ao
Desejo inconsciente, transformando o destino (a repetição) em memória
(o saber sobre si).
A verdadeira Meta de uma
análise não é ser feliz, rico ou produtivo, mas sim conseguir habitar o mundo
com menos engano sobre quem se é e o que se deseja. É um compromisso que
se estabelece não apenas por um ano, mas pela vida.
3. Convite ao Próximo Ciclo
Se este e-book o fez questionar
as suas metas de Ano Novo, ele cumpriu o seu papel. A passagem de ano não exige
um novo plano de ação, mas sim um novo posicionamento subjetivo.
O ano novo é apenas mais um ponto
no tempo que nos confronta com a Falta e a passagem da vida. A escuta
psicanalítica não oferece promessas de felicidade fácil, mas o encontro com
o seu Desejo.
Você está pronto para trocar a
ilusão da meta pela ética do seu Desejo?
📝 Referências
Bibliográficas para Consulta (Final)
- LACAN,
J. (1959-1960). O Seminário, Livro VII: A Ética da Psicanálise.
(A referência central sobre a ética lacaniana e a não-cessão do Desejo).
- SOLER,
C. (Vários textos sobre a clínica lacaniana). (Aborda a destituição
subjetiva e o fim da análise como responsabilidade perante o Desejo).
- DOR,
J. (1985). Estrutura e Perversões. (Útil para contextualizar a
diferença entre o Desejo e as demandas do Outro).
Caso precise de mais informações ou orientações sobre sua
jornada de autoconhecimento, conte sempre comigo.
Epílogo: Um Convite Afetuoso
ao Seu Novo Ciclo
Ao longo destas páginas,
questionamos a rigidez das metas e o peso do "Eu Devo". A verdadeira
promessa de um novo ciclo não está na mudança forçada de comportamento, mas na coragem
de olhar para dentro.
Você é um sujeito complexo, com
uma história única e um Desejo que merece ser escutado e honrado. É natural que
o confronto com a Falta ou com a Angústia gere hesitação, mas é
exatamente nesse ponto de não saber que reside a sua maior força.
A Psicanálise não é sobre
consertar o que está quebrado; é sobre compreender o que o move. É sobre
transformar o sofrimento que se repete no conhecimento que liberta. Se algo
ressoou profundamente durante esta leitura, se o seu Desejo sinalizou um
caminho, aceite esse chamado.
O acompanhamento psicanalítico é
um presente que você se dá: um espaço de escuta sem julgamentos, onde a sua voz
— e a voz do seu inconsciente — é, finalmente, a protagonista.
Transforme sua mente,
transforme sua vida.
Inicie Sua Jornada de Autoconhecimento
Caso precise de mais informações ou orientações sobre sua
jornada de autoconhecimento, conte sempre comigo.
Dr. Marco Barbosa, Psicanalista Clínico
Atendimentos com Psicanalista e Neuro Psicanalista
Clínico, Self Coach, Professor e Filósofo Marco Barbosa.
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