A Fuga da Realidade: O Mecanismo de Dissociação como Defesa do Eu Infantil contra o Insuportável
A Dissociação é um mecanismo de defesa complexo e arcaico no qual o Eu se fragmenta ou se separa de pensamentos, memórias, sentimentos ou sensações. Embora possa se manifestar em qualquer idade, ela é particularmente importante na clínica infantil, pois o Eu da criança, ainda em formação, tem menos recursos para integrar uma experiência de trauma maciço (como o abuso, a negligência severa ou a violência testemunhada). A dissociação é, paradoxalmente, um ato de sobrevivência psíquica: o sujeito se desliga da realidade para que o insuportável não o destrua por completo.
Separação, Trauma e a Não-Inscrição da Dor
A dissociação impede que a experiência traumática seja integrada na narrativa do Eu, deixando-a como um evento que "não aconteceu" para a consciência:
A Divisão do Eu: O psiquismo da criança, incapaz de processar o excesso de dor ou terror, "separa" o afeto da representação. O evento traumático é relegado a um lugar psíquico à parte. O Eu se divide em partes que carregam a experiência do trauma e partes que continuam a funcionar na vida cotidiana (o "eu que sabe" e o "eu que ignora").
A Sensação de Estranheza: A criança dissocia frequentemente sente que está "flutuando", que as coisas "não são reais" (desrealização) ou que ela "não é ela mesma" (despersonalização). Esse entorpecimento emocional é a defesa contra a dor avassaladora. No setting analítico, isso pode se manifestar como um vazio, uma dificuldade extrema em sentir ou narrar a própria história.
O Retorno Atuado: Como a experiência traumática não foi simbolizada, ela retorna através de atuacões corporais e repetições na vida (como vimos no artigo anterior). No entanto, o sujeito dissociado repete a cena com uma característica distintiva: ele parece ausente ou sem afeto, porque a parte da memória que carrega a dor está separada da parte que atua.
O tratamento da dissociação exige um trabalho lento e cuidadoso de reintegração. O analista precisa ser o depositário da memória e do afeto insuportável, oferecendo um ambiente de holding seguro para que o paciente, aos poucos, possa retornar à experiência dissociada e, finalmente, dar-lhe um nome e um lugar na sua história.
Para Refletir: Pense em momentos de grande estresse ou susto. Sua reação inicial é de agir ou de paralisar e sentir uma estranha calma? Qual seria a função dessa "calma" em face do perigo?
Sugestão de Leitura (Bibliografia):
FERENCZI, S. (1932). Confusão de Línguas entre o Adulto e a Criança (Aborda como o trauma leva à fragmentação e à identificação com o agressor).
JANET, P. (1889). O Automatismo Psicológico (Pioneiro no estudo da histeria e da dissociação).
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