O Fantasma da Culpa: O Processo de Silenciamento e a Dificuldade em Assumir a Posição de Vítima

 



A culpa não é apenas uma emoção, mas um mecanismo psíquico instalado pelo abuso que garante o seu prosseguimento e o silêncio da vítima. O segredo do abuso não se refere primariamente à ocultação do ato, mas à ocultação do agressor e, principalmente, do sofrimento e da inocência da vítima.

A Tirania da Internalização

A culpabilização da vítima é um fenômeno complexo, que tem suas raízes na dependência e no terror infantil:

  • O Veredito do Supereu: O abuso acontece na esfera do não-dito e do inconsciente. A criança, sem recursos para processar a violência, usa a identificação com o agressor (mecanismo primitivo) e internaliza a sua censura. O Supereu da vítima se forma de maneira distorcida, com a voz do agressor, condenando-a e exigindo o silêncio.

  • O Terror da Desintegração: O segredo é mantido não apenas pelo medo do agressor, mas pelo medo da desintegração social e familiar. Falar pode significar a destruição da família, a perda do agressor (se ele for um familiar) e a não-crença dos outros. O silêncio, nesse sentido, é a defesa contra um trauma secundário — o terror de ser exposto e de não ser acreditado.

  • A Inversão do Rótulo: O sobrevivente frequentemente vive com o fantasma de que é mau, sujo ou defeituoso, sentindo-se responsável pela agressão sofrida. Isso impede que ele se posicione como vítima, pois essa posição implicaria confrontar a verdade (o agressor é mau) e o risco de ser punido pelo Supereu interno e pela sociedade (o julgamento e o tabu). A culpa se torna mais confortável do que a verdade.

O trabalho clínico com a culpa exige a lenta e cuidadosa desconstrução desse Supereu tirânico. O analista precisa oferecer a crença e a validação que foram negadas à criança. O objetivo é que o paciente possa, finalmente, nomear o agressor (em fantasia e na palavra) e devolver a culpa ao lugar de onde ela nunca deveria ter saído: o ato de violência do Outro. Somente ao se libertar da culpa, o sujeito pode reivindicar sua inocência e iniciar o processo de elaboração do luto pela infância roubada.

Para Refletir: Na cultura, o fenômeno do victim blaming (culpabilização da vítima) não é a manifestação social da dificuldade do psiquismo humano em tolerar a existência de uma maldade pura e imotivada?

Sugestão de Leitura (Bibliografia):

  • HERMAN, J. L. (1992). Trauma e Recuperação (Análise da dinâmica do aprisionamento e da importância de dar testemunho).

  • FREUD, S. (1923). O Ego e o Id (Para revisão do conceito de Supereu e suas origens).


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Dr. Marco Barbosa, Psicanalista. WhatsApp: 📲 17 997116341

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