O Vaso e o Conteúdo: A Função de Reverie Materna e a Capacidade de Pensar (Bion)
Wilfred Bion, seguindo a linhagem kleiniana, concentrou seus estudos na origem do pensamento. Ele postulou que a capacidade de pensar e simbolizar não é inata, mas se desenvolve a partir da relação primária entre o bebê e o objeto (geralmente, a mãe). O pensamento surge da necessidade de lidar com a experiência emocional – especialmente a dor e a frustração – que o bebê não consegue processar.
Elementos Beta, Alfa e a Função Container-Contained
O desenvolvimento do psiquismo e da capacidade de pensar depende da interação de dois elementos:
Elementos Beta (O Conteúdo Não-Processado): São as experiências emocionais brutas, não pensáveis e não representáveis – sensações, terrores e dores que o bebê expulsa para fora (via identificação projetiva) porque são insuportáveis. Se não forem processados, os elementos beta permanecem como fatos em si e são a base dos fenômenos psicossomáticos e das atuações.
A Função Alfa (O Processador): É o mecanismo psíquico que transforma os elementos beta em elementos alfa – que são experiências psíquicas que podem ser armazenadas, sonhadas e pensadas. A função alfa é a base para a memória e para o sonhar.
O Vaso (Container) e o Conteúdo (Contained): O Eu do bebê (o contained / conteúdo) projeta seus elementos beta na mãe, que precisa atuar como o vaso (container). A mãe precisa ser capaz de receber a angústia indizível do bebê, digeri-la (através de sua reverie) e devolvê-la ao bebê de forma modificada e tolerável (transformada em elementos alfa).
A Reverie Materna e a Origem do Pensar
A Reverie é o estado mental da mãe, caracterizado pela receptividade empática e pela capacidade de tolerar a angústia sem atuar ou negá-la.
O Trabalho Materno: Quando o bebê projeta o terror ("Eu vou morrer de fome!"), a mãe que funciona bem recebe essa sensação, a pensa ("Meu bebê está frustrado e com fome") e a devolve em um gesto ou olhar que comunica: "Você está com raiva, mas você não vai morrer. Eu estou aqui."
Internalização: Ao receber a angústia de volta, mas agora modificada e nomeada, o bebê internaliza não apenas a mãe (o objeto bom), mas também a função da mãe – a Função Alfa. É por meio dessa internalização que o bebê desenvolve sua própria capacidade de pensar sobre a dor, em vez de simplesmente atuá-la ou expulsá-la.
A Falha da Reverie: Se a mãe não consegue exercer a reverie (por estar ansiosa, deprimida ou traumatizada), ela devolve a angústia do bebê sem modificação, ou até de forma amplificada. Nesses casos, a criança não desenvolve uma função alfa robusta e tenderá a usar excessivamente a identificação projetiva, expelindo o que não pode pensar e recorrendo a atuações e somatizações.
O trabalho do analista é, muitas vezes, o de atuar como esse vaso, recebendo as angústias beta do paciente (aquelas que não foram transformadas na infância) e devolvendo-as como pensamentos, reativando a função alfa falha.
Para Refletir: Em que medida a nossa dificuldade adulta em digerir frustrações e transformá-las em aprendizado não é um eco de uma falha na função de reverie que nos impediu de desenvolver a tolerância ao desprazer?
Sugestão de Leitura (Bibliografia):
BION, W. R. (1962). Aprendendo da Experiência (Texto que introduz os conceitos de elementos alfa, beta e a função de reverie).
SEGAL, H. (1979). Introdução à Obra de Melanie Klein (Que serve de base para a teoria de Bion).
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